Gritar forte em tempos de barbárie

Novo livro de Gregory Haertel enfoca o amor como força subversiva


Em uma época em que as violências multiplicam-se e são enaltecidas com vilania por apoiadores da tortura e do obscurantismo político que reina desgovernado no país, um grito ecoa com potência de revolta e denúncia; um grito literário, em primeira pessoa, com força e beleza para ser ouvido com atenção e enternecimento. Estou falando do novo romance do escritor Gregory Haertel, Quando o grito enfim chegar, que ilustrado com as inquietantes fotografias de Sabrina Marthendal, chega agora à casa dos apoiadores do financiamento coletivo que viabilizou a publicação.


Foto de Sabrina Mathendal que compõe o livro Quando o grito enfim chegar

Duas pessoas que se encontram casualmente, a partir de conhecidos em comum, e se conectam com a força dos amores imprevistos, das paixões imediatas, como em muitas histórias de amor. Entretanto, tal como também em muitas dessas histórias, nada é tão simples quando se trata de dois homens que se apaixonam. A incompreensão, o preconceito e os questionamentos, a dúvida sobre a sanidade mental, o ódio ressentido que divide famílias a partir das expectativas frustradas de amor e conduta, sublinham a narrativa com relatos doloridos e nada incomuns.


Foto de Sabrina Mathendal que compõe o livro Quando o grito enfim chegar

A história de amor que se descortina no romance, a potência erótica de suas descrições, a permissividade em narrar o gozo homoafetivo em seus detalhes e afetos, a cisão das relações familiares a partir da revelação de interesses e identidades de seus personagens, embates tão comuns no seio das famílias, são narrados por Gregory Haertel de modo direto, sem desvios aleatórios ou decorativos, mas com força poética contundente, expressiva e sensível ao descrever a dor de suas criações.


Foto de Sabrina Mathendal que compõe o livro Quando o grito enfim chegar

As manifestações políticas, nas ruas e nos embates familiares, permeiam a obra como estímulos às tomadas de decisão, tanto dos personagens quanto, sub-repticiamente, dos leitores. A violência policial, que assassina indiscriminadamente a serviço de políticas muitas vezes escusas, tem papel fundamental na trama. As ações e consequências dos crimes cometidos por policiais representam, não só no romance, um reflexo expandido da violência que o preconceito e a ignorância generalizada, muito presente no seio das famílias, engendra em grande escala e, acaba por se tornar uma referência explícita dos conflitos cotidianos que se tornaram constantes em uma sociedade cada vez mais polarizada como a nossa.


Com os noticiários repletos de casos de homofobia, racismo e arbitrariedades de um governo que usa o fanatismo religioso como plataforma eleitoral, ler o relato contundente das descobertas, reviravoltas e violências de Quando o grito enfim chegar não me traz alívio ou consternação, mas me deixa alerta para o quanto a minha comodidade anestesiada contribui para o morticínio indiscriminado de indígenas, negros, pobres, sem-terra e homossexuais que acabam por não se encaixar nos padrões excludentes, e muitas vezes criminosos, dos auto-proclamados homens de bem e suas milícias. Uma leitura necessária nesses tempos em que muitos gritos são calados pela censura, pelo assassínio e pelo obscurantismo religioso.




Quando o grito enfim chegar
Autor: Gregory Haertel / Fotos: Sabrina Marthendal
Editora: 3 de maio
120 páginas
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