A intermitências do tempo e a poesia do cotidiano

Crítica teatral sobre o espetáculo Para Contar Estrelas, do grupo Cirandela, Criciúma/SC



Cena do espetáculo Para Contar Estrelas, do Grupo Cirandela (Criciúma/SC). Foto: Tamires de Lara



Há várias formas de perceber o tempo de um modo expandido. Uma delas, das mais aterrorizantes, é uma sala de aula repleta de alunos com energia total para correr, gritar e brincar enquanto os segundos para o sinal de saída se alongam demoradamente. Vamos ampliar o horizonte, vamos colocar 400 crianças dos 07 aos 12 anos juntas, sentadas no chão, aguardando o início de uma peça de teatro. O murmurinho, a expectativa, o anseio parecem se solidificar no ar, que se torna cada vez mais denso ante a aproximação do início. Vamos localizar a cena, as 400 crianças em polvorosa esperando o início do espetáculo são alunos da rede pública de educação do Município de Içara, que patrocina o III Festival de Teatro do Revirado, que acontece anualmente no município catarinense. O espetáculo é o Para contar estrelas, do grupo Cirandela, de Criciúma/SC.


Há um ruído de algazarra, risos e conversas que cresce exponencialmente conforme se aproxima o início do espetáculo. Não é a primeira vez que vejo o espetáculo, que possui uma versão com iluminação e sonorização para salas de teatro. Logo chegam dois personagens inusitados, com seus gestos sincronizados e expressões mecânicas. Eles chegam como de outro mundo em meio à balbúrdia e imediatamente suas presenças silenciam as 400 crianças. Não há um enredo simples, eles não narram histórias lineares ou aventurescas, eles falam sobre a constituição do tempo, sua matéria fugidia e dispersa, sua incapacidade de mensuração absoluta, sua incompletude em sua duração incessante e contínua. E as crianças, mesmo sem peripécias ou piadas em meio às elocubrações filosóficas e metafísicas, mergulham no universo fora do tempo que se cria na ambiência criada pelo espetáculo.


Na trama, dois seres possivelmente atemporais, são encarregados de colher fatias do cotidiano das pessoas para que, em um eventual fim dos tempos, essas memórias não se percam. Acontece que nem toda memória vale ser coletada. Qual o sentido em se guardar para a posteridade a rotina repetitiva e maquinal dos afazeres compulsórios, ou dos trabalhos que são realizadas como um castigo? Mais vale guardar os fragmentos de memória das brincadeiras infantis, do afeto maternal, das singelezas do cotidiano e do amor entre as pessoas. Tudo o mais parece descartável, em meio à abundância de coisas que se perdem na repetição e no esquecimento.



Foto da apresentação do espetáculo Para Contar Estrelas em Içara/SC. Crédito: João Gabriel


Os atores Priscila Schaucoski e Bruno Andrade, em Para contar estrelas, nos levam a perceber a beleza do cotidiano, os detalhes marcantes escondidos na continuidade avassaladora dos afazeres; eles expandem o tempo na tarefa de arrastar o público, crianças e adultos, para fora da avalanche de rotinas intermináveis que soterra a percepção em sua continuidade avassaladora. Aos poucos, a sincronia e a mecanicidade do início acaba por ser subvertida, a percepção da singela poesia que coletam em suas cápsulas do tempo os liberta dos maquinismos robóticos e cálculos sem fim. Essas cápsulas, bem como todos os objetos de cena e cenografia, são feitos de objetos do dia a dia , como escorredores de macarrão, relógios, caixas, sinetas e instrumentos musicais. Há uma unidade visual nos tons envelhecidos do tratamento dos cenários e uma engenhosidade marcante nas transformações e funções que adquirem em cena.


O jogo que os atores mantém entre si e com o público é intenso, as correlações que evocam com obras como o Quixote, de Cervantes, bem como o tratamento poético do texto, conectam a trama à imprevisibilidade da imaginação, das brincadeiras e do afeto. As opções da premiada direção de Reveraldo Joaquim e Yonara Marques se revelam eficazes no conjunto, e conseguem fazer com que Para contar estrelas expanda o tempo de uma maneira sensível o suficiente para conter a energia e a atenção das 400 crianças, que sentadas no chão, coletam em suas cápsulas do tempo, tal como na trama do espetáculo, um momento digno de ser guardado na memória.



Ficha Técnica:

Atuação: Priscila Schaucoski e Bruno Andrade

Roteiro e Argumento: Priscila Schaucoski, Bruno Andrade, Yonara Marques e Reveraldo Joaquim

Direção: Reveraldo Joaquim e Yonara Marques (Grupo de Teatro Cirquinho do Revirado)

Dramaturgia: Luan Marques Joaquim

Músicas: Bruno Andrade e Priscila Schaucoski

Direção de arte: Reveraldo Joaquim Cenário: Reveraldo Joaquim e Bruno Andrade Figurino: Yonara Marques e Priscila Schaucoski

Adereços: Priscila Schaucoski, Bruno Andrade e Reveraldo Joaquim

Costureira: Dona Valentina

Assessor de imprensa do grupo: Antônio Rozeng



Espetáculo visto no III Festival do Revirado, em setembro de 2019, em Içara/SC.



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